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Meditação Visual7 min de leitura·30 de setembro de 2026

Awe walk: a caminhada do assombro que faz o mundo crescer de novo

Awe walk é uma caminhada comum feita com a atenção voltada para o vasto e o surpreendente. Veja o que diz a pesquisa e como fazer a sua ainda esta semana.

Por Eleonor Vance

Uma figura minúscula caminhando por uma trilha sob árvores imensas e um céu estrelado que brilha em lavanda e água-marinha sobre um fundo berinjela profundo.

Existe uma sensação particular que chega sem ser convidada, talvez algumas vezes por ano: sob um céu de verdade, longe dos postes de luz, numa noite no interior; à beira de algo imenso; ou dentro de uma catedral quando o órgão de repente se abre. A pele arrepia. A respiração falha. E por um instante aquele eu barulhento, ansioso, que narra tudo o tempo inteiro, fica em silêncio, não porque alguém o convenceu, mas porque ele ficou pequeno na comparação. Os psicólogos chamam essa sensação de assombro, ou awe. O resto de nós costuma chamar de encantamento, e parte do princípio de que não dá para agendar.

A notícia interessante é que dá, pelo menos um pouco. Na última década, pesquisadores que estudam o assombro descobriram que ele se comporta menos como um evento raro e mais como uma faculdade: um jeito de olhar que pode ser praticado de propósito, na forma mais simples do que se convencionou chamar de awe walk, a caminhada do assombro. A receita é de uma modéstia quase constrangedora. Você sai para caminhar, como sairia de qualquer jeito. A única mudança é para onde você aponta a atenção.

O estudo do eu pequeno

A versão formal vem de uma pesquisa da Universidade da Califórnia em São Francisco, em que adultos mais velhos e saudáveis foram convidados a fazer uma caminhada de quinze minutos por semana, durante oito semanas. Metade não recebeu instrução nenhuma além de caminhar; a outra metade recebeu a tarefa de fazer awe walks: buscar um lugar novo quando possível e, durante o trajeto, prestar atenção à vastidão e aos detalhes, céus enormes, árvores antigas, o desenho de uma folha, com a abertura de um primeiro encontro. Os participantes tiravam selfies pelo caminho e relatavam suas emoções. Ao longo das semanas, os caminhantes do assombro relataram emoções positivas pró-sociais crescentes, coisas como compaixão e gratidão, e mais alegria nas próprias caminhadas; e, num detalhe encantador, as selfies também mudaram: o eu foi encolhendo no enquadramento enquanto a paisagem crescia, um retrato literal do que os pesquisadores chamaram de eu pequeno (Sturm et al., 2020, Emotion).

É um estudo pequeno, e ninguém deveria construir um templo sobre ele. Mas ele conversa com um corpo mais amplo de pesquisas sugerindo que experiências de vastidão aquietam o pensamento autorreferente, aquela moenda constante do eu e do meu, e inclinam as pessoas para a generosidade e a conexão. Sentir-se pequeno, descobre-se, não é uma diminuição. É um alívio. A maior parte da nossa infelicidade exige que sejamos a maior coisa à vista.

Sentir-se pequeno não é uma diminuição. É um alívio. A maior parte da nossa infelicidade exige que sejamos a maior coisa à vista.

O que transforma uma caminhada em awe walk

Na pesquisa, o assombro costuma ter dois ingredientes: vastidão, algo maior que o eu ou fora do seu quadro habitual, e uma necessidade de acomodação, o esforço gostoso da mente se esticando para dar conta. Nenhum dos dois exige o Grand Canyon. Vastidão existe na altura de uma figueira centenária de praça, na idade do paredão de uma igreja colonial, no número absurdo de flores que um ipê consegue abrir de uma vez em setembro. O esticamento acontece sempre que você considera o que está olhando de fato: que a luz nas suas mãos saiu do Sol há oito minutos; que aquela árvore já estava ali antes de qualquer pessoa que você conheceu na vida; que milhares de andorinhas em revoada de algum jeito não se chocam. O assombro é menos uma propriedade dos lugares do que uma profundidade do olhar, e é por isso que duas pessoas podem fazer a mesma caminhada e só uma delas volta transformada.

A prática, então, é uma caminhada com três ajustes leves. Vá a algum lugar com um pouco de novidade, se puder, porque a familiaridade é o inimigo mais silencioso do assombro. Deixe o celular no bolso, porque o assombro exige um olhar sem interrupção e não compete com um feed. E caminhe num ritmo que permita parar, porque o assombro costuma chegar exatamente nos momentos em que normalmente passamos direto.

Alguns lugares onde o assombro costuma se esconder

Se você não sabe para onde se apontar, a tradição da caminhada contemplativa e a pesquisa sobre o assombro concordam sobre certos esconderijos confiáveis. Trate a lista como sugestão de partida, não como currículo:

  • Para cima: copas de árvores, bancos de nuvens, prédios altos vistos da base, e qualquer céu na hora perto do nascer ou do pôr do sol.
  • Coisas antigas: árvores centenárias, degraus de pedra gastos, rios, qualquer coisa que faça a sua própria escala de tempo parecer, por um instante, um boato.
  • Multidões: revoadas, a massa de gente vista de um viaduto, um céu noturno escuro o bastante para mostrar profundidade, a chuva atravessando um vale.
  • Vastidão em miniatura: os desenhos da geada na serra, florestas de musgo num muro, as nervuras de uma folha contra a luz, onde a escala corre no sentido contrário.

Quem vive em cidade grande não precisa se sentir excluído: os participantes da pesquisa encontraram assombro tanto na natureza quanto no ambiente urbano, e o vão livre de um museu ou uma catedral de guindastes no canteiro de obras pode esticar a mente com a mesma firmeza que uma floresta. Para os dias em que nem um nem outro está ao alcance, as telas podem manter a faculdade aquecida, desde que usadas devagar: às vezes deixo as texturas vastas e sem pressa do Feelsy rodando no piloto automático à noite, do jeito que se olha o tempo mudar, dez minutos de algo maior e mais lento que as minhas preocupações. Não substitui a figueira da praça. É treino para notá-la.

O encantamento como disciplina

Tem algo de levemente cômico em agendar o encantamento, admito: quinze minutos de transcendência, às terças. Mas a comédia se desfaz assim que você tenta. O que a agenda fornece não é o assombro em si, que não aceita ordens, mas as condições em que ele se torna provável: a caminhada feita, os olhos erguidos, o celular silenciado, o passo desacelerado. As velhas tradições contemplativas entendiam isso perfeitamente; suas peregrinações, procissões e romarias eram, entre outras coisas, awe walks com figurinos melhores. O mundo não ficou menos vasto de lá para cá. Nós é que ficamos treinados em não olhar, e o treino, felizmente, funciona nos dois sentidos.

Feelsy é um produto de bem-estar, não um conselho médico. Se o estresse, a ansiedade ou os problemas de sono persistirem, procure um profissional qualificado.

Referências

  1. Sturm, V. E., Datta, S., Roy, A. R. K., et al. (2020). Big smile, small self: Awe walks promote prosocial positive emotions in older adults. Emotion.

Perguntas frequentes

O que é um awe walk?

Awe walk, ou caminhada do assombro, é uma caminhada comum, geralmente de uns quinze minutos, feita com a atenção deliberadamente voltada para a vastidão, a novidade e os detalhes: céus enormes, árvores antigas, desenhos nas folhas, qualquer coisa maior ou mais estranha que o seu quadro habitual. A única diferença para um passeio normal é para onde você aponta a atenção, de preferência num lugar um pouco novo, com o celular guardado e um ritmo que permita parar.

O que o estudo sobre awe walks descobriu?

Na pesquisa da Universidade da Califórnia em São Francisco, adultos mais velhos que fizeram uma caminhada do assombro de quinze minutos por semana, durante oito semanas, relataram emoções positivas pró-sociais crescentes, como compaixão e gratidão, e mais alegria durante as caminhadas, em comparação com quem apenas caminhou. Até as selfies mudaram ao longo das semanas: o eu foi ocupando cada vez menos espaço no enquadramento, o que os pesquisadores ligaram ao efeito do eu pequeno.

Por que se sentir pequeno faz bem?

Experiências de vastidão parecem aquietar o pensamento autorreferente, aquela moenda constante do eu e do meu. Quando algo realmente maior ocupa a atenção, o eu deixa de ser a maior coisa à vista, e boa parte da nossa infelicidade cotidiana depende de que ele seja exatamente isso. O resultado costuma parecer alívio e conexão, não diminuição.

Precisa de natureza ou montanha para fazer um awe walk?

Não. O assombro tem dois ingredientes, a vastidão e o esticamento mental de absorver algo, e os dois existem numa rua comum: a altura de uma figueira, a idade do muro de uma igreja, uma revoada de andorinhas, o vão livre de um museu, o teto de uma estação. Os participantes da pesquisa encontraram assombro tanto em ambientes naturais quanto urbanos. É menos uma propriedade dos lugares do que uma profundidade do olhar.

Com que frequência fazer um awe walk?

O protocolo da pesquisa usou uma caminhada de quinze minutos por semana, durante oito semanas, o que é um ótimo modelo: modesto o bastante para manter, longo o bastante para funcionar. O que a agenda garante não é o assombro em si, que não aceita ordens, mas as condições que o tornam provável: a caminhada de fato feita, os olhos erguidos, o celular em silêncio e o passo mais lento.

Portrait of Eleonor Vance

Sobre a autora

Eleonor Vance

Contributing writer

Eleonor writes about contemplative traditions, attention and the cultural history of calm. She has spent two decades collecting the rituals humans use to slow down, from zazen halls to hammams, and translating them for modern, screen-lit lives.

Feel it for yourself.

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